Tereza em trânsito

Publicado por Ricardo, 26/07/2013

por Mariana Lage (textos) e Paula Huven (fotos)

Encontrei Tereza Brant um dia por acaso no Facebook. A história desta matéria é um retrato das nossas conversas e uma tentativa de aproximar de diversas questões que surgem em torno de sua identidade de gênero em transição.

Quem é Tereza? Tereza é uma menina com cara e corpo de menino. Além disso, é uma jovem, na casa dos 20 anos, que faz enorme sucesso entre adolescentes. Para se ter uma ideia, apenas uma de suas fotos recebeu 4,6 mil curtidas, cerca de 500 compartilhamentos e quase 600 comentários. E há todos os tipos de comentários, desde “casa comigo” e “me engravida” a “com uma dessas até eu virava sapatão”, “é uma mulher e é mais bonito(a) que a marmanjada geral” e “que gatinha. falou meu lado gay, hétero sei lá o que pensar”.

Hoje, julho de 2013, ela contabiliza 24,5 mil seguidores só na rede social de Zuckerberg, outros 9 mil no Instagram e mais 3 mil no Twitter. Desde nosso primeiro contato, no início de maio, os números cresceram exponencialmente. Há três meses, eram 12 mil no Facebook e menos 6 mil no Instagram, além dos oito fã clubes que carregam seu nome.

Antes de conversarmos sobre questões de gênero, identidade e sexualidade, pesquisei a vida de Tereza na internet, mas não haviam muito detalhes disponíveis. O que o Google me apresentava era uma infinidade de fotos, de todos os tipos, das seminuas às com black-tie, ostentando sempre uma identidade visual masculina. Havia uma ou outra curiosidade como, por exemplo: Tereza Brant havia se tornado uma tag no Tumblr; no Twitter, ela era tema de diversos post. Um deles dizia, usando a hashtag #esparrosdanoite, “meu sonho e o de metade de BH é pegar a Tereza Brant”.

Tereza é um menino encantador e, sobretudo, bem sedutor. E é também isso o que fascina. Tereza é uma menina que se sente muito bem em ser um menino. Aliás, que, na maioria das vezes, acha graça em poder confundir os limites entre gêneros e que não vê problema algum, ou qualquer contradição, em confundi-los. Apesar da transformação visível do corpo em uma identidade masculina, ela constantemente se apresenta como menina e se refere a si mesma sempre no feminino. A voz tornou-se mais grave e os músculos de um corpo malhado diariamente ocupam o espaço de onde antes haviam traços delicados e finos.

Filha única em uma família de classe média, Tereza nasceu em Belo Horizonte, mas passou parte da sua infância e pré-adolescência em Patos de Minas, no interior do Estado. De volta à BH aos 14, ela hoje trabalha como promoter de grandes festas, mas ambiciona mesmo é a vida de modelo masculino e “ator ou atriz, dá na mesma”.

Tereza Brant, na verdade, nasceu Tereza Christina Silva Borges, no dia 7 de fevereiro de 1993. Aquariana. Ou aquariano. Oscilo entre os adjetivos masculinos e femininos e ela parece pouco se importar. “Uma das perguntas mais frequentes que escuto: ‘eu te chamo de ele ou ela?’. Eu costumo dizer: ‘me chame como você quiser’”, conta, explicando que aqueles que a conhecem há mais tempo só a tratam com o artigo feminino, enquanto os amigos recentes têm dificuldades em enxergar nela uma menina. A propósito, isso é para ela uma realidade cada vez mais inarredável: seus traços femininos estão desaparecendo. Comento que, ao telefone, fiquei surpresa ao escutar uma voz nada ambígua. Ela me conta quando e por que decidiu fazer a transição e entrar em tratamento. “Chegou um momento em que todos meus amigos estavam crescendo, os traços, deixando de ser infantis, e só eu ainda estava com essa cara de novinha”.

“Já são 8 meses que passaram voando. Estou assustada com a transformação do meu corpo”, conta quando da nossa primeira conversa, em início de maio deste ano. Na semana seguinte, quando saímos para fazer as fotos, ela comenta que tem odiado a quantidade de pelos que apareceram por seu corpo e que, às vezes, pensa em fazer depilação a laser. Pergunto se a depilação definitiva não poderia causar um arrependimento mais tarde, ela volta a falar sobre o susto que tem levado, a cada dia, com a transformação rápida do corpo. De sua fala, fica a impressão daquilo que está evidente na superfície do corpo: Tereza está em transição. Talvez por isso evite categorias, delimitações ou decisões deliberadas.

Ela também está assustada com o afluxo de seguidores e o assédio de meninas jovens. É tudo muito recente e isso fica claro ao longo de nossas conversas. Existe um fascínio geral, tanto dela quanto de quem a conhece, por esse corpo e por essa identidade em transição. Arrisco a dizer que o fascínio talvez esteja na ausência de limites muito claros; e isso é algo que parece confortar Tereza. Me pergunto se o conforto não vem também do fato de ela ser um(a) transgênero bastante jovem, brasileira e que parece não encontrar tantas resistências em ser aceita: haja visto a quantidade de seguidores.

Em sua fala, fica sempre a precaução de manter a ambiguidade. “‘Como você chama?’ ‘Tereza’. Nunca vou me passar por menino, a não ser que seja de brincadeira”, destaca. A tranquilidade com que fala de suas escolhas parece endossar a própria percepção de que é uma pessoa normal, de que não há nada errado em ser um gênero em transição. Pergunto sobre como os pais receberam suas escolhas, ela conta que tudo foi “levado numa boa”.

Sobre o fluxo crescente de seguidores, Tereza conta que tudo começou quando uma foto sua, vestida apenas de cuecas, foi publicada por uma amiga no Instagram e, logo em seguida, republicada num site sobre andrógenos e transgêneros assim como no perfil Goy Birl. “De um dia pro outro, brotaram 10 mil (seguidores). É impossível responder todo mundo. São pessoas que querem me conhecer e me perguntam de tudo. Tem até meninas muito novas, de 13 anos, falando que querem casar comigo”. Tereza conta que o assédio das meninas existe desde que, há quatros anos, decidiu cortar os cabelos bem curtos e assumir o jeito mais menino de ser. Antes dos 16 anos, revela, era difícil se assumir. Tinha cabelo na cintura e, durante o dia, usava bata e vestido e, segundo os amigos, era a Christina. À noite, na balada, de cabelo amarrado, bermuda e adereços masculinizados, era Tereza. Com os cabelos curtos, aos 16, Tereza deu adeus a Christina.

Conversamos sobre Oxumaré, orixá também conhecido como metá-metá, que metade do ano é homem, metade é mulher e que é simbolizado pelo arco-íris. Falamos sobre o Ying e Yang: na escuridão também há luz, no feminino também há masculino. Este é um ponto basilar para Tereza. Ela gosta de ser uma menina que está se transformando em menino, numa espécie de reiterada dupla cidadania. “Chegamos num ponto que eu queria chegar com você. Uma menina que a vida toda sentiu atração por homens e, de repente, se sente atraída por mim, você acha que muda alguma coisa?” Respondo com uma pergunta: “O que é que muda?” “Para mim, não muda nada”, resume Tereza.

Pergunto se tem desejo de mudar de nome, já que a cada dia seus traços se tornam mais masculinizados. “Não, este foi o nome que meu pai me deu. Eu gosto dele, mesmo achando que é nome de vovó. Quem for me conhecer vai me conhecer como Tereza”. Ao longo de toda a conversa, ela deixa claro que se trata, antes de tudo, de não delimitar, ou melhor, não se fixar exclusivamente numa identidade de gênero: ou homem ou mulher. Se os limites não estão muitos claros para esse corpo em transição, Tereza defende que é possível viver sem conceitos muito delimitados.

Antes de começarmos a seção de fotos, ela me conta, um pouco chateada, a respeito de uma postagem de uma página no Facebook sobre transexuais. “Eles me marcaram me cobrando uma postura mais definida, dizendo que eu não assumo se sou homem, que não mudo meu nome, essas coisas. Fiquei chateada porque, antes de eu ver a postagem, já tinham várias pessoas discutindo minha escolha antes mesmo de pedirem minha opinião”, revela.

Um dia depois, mostro a matéria da TRIP “O homem com vagina”, sobre Buck Angel, de outubro de 2010. “Gostei da última frase”, revela Tereza, assumindo uma semelhança com Angel: “E as pessoas odeiam quando as coisas não cabem nas suas ‘caixas’ classificatórias…”, ela copia e cola enquanto conversamos no chat. Logo em seguida, verifiquei que a última frase da matéria era, contudo: “E na verdade me sinto um garanhão que tem uma vagina!”. Talvez este seja também o caso de Tereza.

Mariana Lage é jornalista, tem um blog incrível e já escreveu aqui antes.
As fotos delicadas são da Paula Huven.

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